A construção da cultura política contrarrevolucionária em Portugal, 1820-1834 (ensaio de definição e caracterização)

Maria Alexandre Lousada
CH – ULisboa

No processo de transição das sociedades de antigo regime para as sociedades liberais actuaram várias correntes e sensibilidades políticas, quer liberais quer contra-revolucionárias. As práticas políticas, os meios simbólicos e discursivos utilizados na luta política e cultural a favor ou contra a revolução, circularam entre os dois campos.

A cultura política liberal tem sido objecto privilegiado da historiografia. Em França, Espanha, Itália ou Portugal, os liberais combinaram o uso de formas novas de intervenção e participação políticas com formas festivas e comemorativas tradicionais. Ao mesmo tempo, estava em construção uma outra cultura política, contra-revolucionária. Se no discurso criticava e repudiava as ‘fórmulas que durante a revolução se adoptaram’, na luta política apropriou-se do novo vocabulário e dos novos modos e meios de fazer política. A criação de uma imprensa combativa – ‘para desenganar’ – que condenava no plano dos princípios, combinou-se com a mobilização popular e os levantamentos militares.

Com base em documentação da IGP, em correspondência e memórias sobretudo de miguelistas, na imprensa da época e nos estudos sobre o miguelismo, analisam-se os elementos que construíram uma identidade política contra-revolucionária: os fundamentos ideológicos e o discurso político; A imprensa como arma da luta política; o povo armado. Voluntários realistas e guerrilhas; a mundividência religiosa; o vocabulário político; os símbolos, rituais e cultura material; as sociabilidades: definhamento dos espaços de lazer das elites.


The various streams of political thought, both liberal and counter-revolutionary, were equally important in the process of transition from the Ancien Regime societies to liberal societies. The political practices, the symbolic and discursive means used in the political and cultural struggle for or against the revolution were used by both sides.

The liberal political culture has been a privileged subject of historiography. In France, Spain, Italy or Portugal, liberals combined new forms of political intervention and participation with festive and commemorative events. At the same time, another political and counterrevolutionary culture was under construction. In the political discourse, the counterrevolutionaries criticized and repudiated the ‘formulas adopted during the revolution’. For the political struggle, they adopted the new vocabulary and new ways and means of doing politics. These counter-revolutionary culture included the creation of a combative press – ‘to disabuse’ – and the formation of conspiracy clubs which were combined with popular mobilization and military uprising.

Based on IGP’s documentation, on correspondence and memoirs mainly from the miguelists, on the press of the time and on studies on miguelism, we analyse the elements that constructed a counter-revolutionary political identity: the ideological grounds and political discourse; the press as a weapon of political struggle; the armed people. Royalist and guerrilla volunteers; the religious worldview; the political vocabulary; symbols, rituals, and material culture; sociability: the withering away of the leisure spaces of the elites.