Subsídios sobre a imprensa periódica vintista (1820-1823)

Subsidies on the vintista periodic press (1820-1823)

Eunice Relvas
IHC-NOVA-FCSH e CML-DMC-DRB-HML

Nesta comunicação analisarei os periódicos portugueses existentes na coleção do Município de Lisboa, que se publicaram, num único ou em vários números, durante o primeiro período liberal nacional, nos anos de 1820-1823, nomeado de vintismo. Para cada título apresentaremos um inventário das existências, periodicidade, duração, formato e distribuição geográfica. Observaremos a sua ideologia, seus redatores/autores (se conhecidos) e secções (quando existentes). Antes da revolução de 1820 a liberdade de imprensa era inexistente. A censura era um dos pilares da defesa do governo e do regime político vigentes. Os textos impressos com maior circulação – jornais, panfletos e folhetos – eram os mais visados pela censura prévia. Chegou a ser proibida a circulação dos jornais portugueses publicados em Londres e, até, de alguns periódicos nacionais. No período inicial do movimento revolucionário o governo tentou controlar as novas publicações, através da instituição de uma comissão de censura, em Lisboa, a 21 de setembro de 1820. Porém, na imprensa periódica, logo nos primeiros dias do mês de outubro, houve um movimento de defesa da liberdade de imprensa, tendo presente a realidade espanhola. O aumento do movimento editorial, fundamentalmente do periodismo, resultou numa imprensa mais livre, em parte devido às dificuldades experimentadas pela comissão de censura de 1820, caracterizadas pelas falhas de orientações políticas e recursos. A 4 de julho de 1821, nas Cortes, foi aprovada a primeira lei da liberdade de imprensa portuguesa. No triénio vintista floresceram os jornais e os pasquins, diários, semanais ou mensais. Mencionavam os acontecimentos relevantes e os atos oficiais, reproduziam sessões das Cortes, notícias do estrangeiro, e, por vezes, anúncios. A imprensa foi uma proeminente arma de propaganda política; tendo sido usada com grande profusão e ambivalência, pelos liberais e contrarrevolucionários na fundamentação das suas ideias, com o objetivo de influenciar e orientar a opinião pública. Nas páginas dos periódicos vintistas, de escrita inflamada, assistimos a discursos antagónicos: uma fação defendia o ideário liberal, combatendo a ignorância e os cidadãos reacionários, visando a formação de uma opinião pública esclarecida e liberal; e por outro lado, na oposição antiliberal e, principalmente ultraliberal, presenciamos ataques virulentos, sarcásticos e injuriosos ao novo regime. Esta brevíssima investigação, a partir do microcosmo da coleção municipal lisbonense – que retrata um vasto conjunto de jornais dados à estampa num período conturbado da história nacional –, pretende ser um subsídio para um conhecimento mais aprofundado do papel desempenhado pela imprensa periódica na difusão do ideário liberal ou contrarrevolucionário, ao promover a informação (apesar do elevado analfabetismo vigente) e fomentar a participação do público, em especial em Lisboa, sede política da vida nacional, nas lutas políticas acesas da época.

Palavras-chave:

Imprensa, Liberalismo, Vintismo, Lisboa


In this paper I will analyse the Portuguese periodicals existing in the collection of the Municipality of Lisbon, which were published in a single or in several issues, during the first national liberal period, in the years 1820-1823, named vintismo. For each title we will present an inventory of stocks, periodicity, duration, format, and geographical distribution. We will observe its ideology, its writers/authors (if known) and sections (if any). Before the 1820 revolution, freedom of the press was non-existent. Censorship was one of the pillars of the defense of the government and the current political regime. The most widely printed texts – newspapers, pamphlets and leaflets – were the most targeted by prior censorship. The circulation of portuguese newspapers published in London and even some national periodicals was prohibited. In the initial period of the revolutionary movement, the government tried to control the new publications, through the establishment of a censorship commission, in Lisbon, on September 21, 1820. However, in the periodical press, in the first days of October, there was a movement for the defense of press freedom, bearing in mind the spanish reality. The increase in the editorial movement, mainly in journalism, resulted in a freer press, partly due to the difficulties experienced by the 1820 censorship commission, characterized by the lack of political guidelines and resources. On July 4, 1821, in Cortes, the first Portuguese press freedom law was passed. In the chronological period under study, newspapers and pasquins flourished, daily, weekly or monthly. They mentioned the relevant events and official acts, reproduced sessions of the Cortes, news from abroad, and sometimes announcements. The press was a prominent weapon of political propaganda; having been used with great profusion and ambivalence, by liberals and counterrevolutionaries in the foundation of their ideas, with the aim of influencing and guiding public opinion. In the pages of the vintista journals, of inflamed writing, we see antagonistic speeches: a faction defended the liberal ideas, fighting ignorance and reactionary citizens, aiming at the formation of an enlightened and liberal public opinion; on the other hand, in the antiliberal and, especially, ultraliberal opposition, we have seen virulent, sarcastic and insulting attacks on the new regime. This very brief investigation, based on the microcosm of the Lisbon municipal collection – which portrays a vast set of newspapers printed in a troubled period of national history – is intended as a subsidy for a deeper understanding of the periodical press in the dissemination of liberal or counterrevolutionary ideas, by promoting information (despite the high illiteracy) and encouraging public participation, especially in Lisbon, the political heart of national life, in the intense political struggles of the time.

Keywords:

Press, Liberalism, Vintismo, Lisbon