Revoluções de rosto janico: experiências, modernidade(s) e o conceito de revolução na Península Ibérica (1808-1823)

Ricardo de Brito
CH-ULisboa

As últimas décadas do século XVIII e as primeiras de oitocentos são entendidas como um período de transição, de mudanças drásticas e, em certo sentido, de aceleração do tempo. A Revolução Francesa, e o subsequente advento de regimes liberais e constitucionais em vários países da Europa e no continente americano, espelha o abalo que se registou nas estruturas do Antigo Regime. Dentro da longa periodização proposta por Reinhart Koselleck (Sattelzeit), este período de transição entre séculos assume-se como um fundamental momento de charneira de um novo (ou modernizado) léxico, que perpassa o espaço público e o discurso político e social das sociedades europeias. A Península Ibérica, com ritmos mais ou menos idênticos nos dois países, não se encontrou à margem deste processo, como tem vindo a revelar, de forma proficiente, o projecto Iberconceptos. Embora com especial foco no cenário português, pretende-se nesta comunicação analisar o conceito de Revolução nas culturas políticas peninsulares desde inícios de oitocentos e durante os processos revolucionários que conduziram a regimes liberais e constitucionais no espaço ibérico. Que arquitectura retórica, tendo em conta um lastro semântico da experiência revolucionária francesa, encontraremos no discurso dos primeiros liberais portugueses? Que elementos de uma memória histórica encontramos conectados ao conceito de revolução (conceito da modernidade) quando este era empregue por estes primeiros liberais? Apesar da moderna semântica que o conceito foi adquirindo, com uma projecção de futuro e de um novo “horizonte de expectativa” (radicalmente oposta à antiga semântica), que elementos de tradição (construída ou de facto) persistiram no discurso dos contemporâneos dos eventos?