Periódicos e folhetos humorísticos de José Daniel Rodrigues da Costa desde a Revolução de 1820 até ao início da Guerra Civil

Humorous periodicals and leaflets by José Daniel Rodrigues da Costa from the Liberal revolution of 1820 to the outbreak of the Civil War in Portugal

João Pedro Rosa Ferreira
CHAM – Centro de Humanidades/FCSH – Universidade Nova de Lisboa

Esta comunicação tem por objeto os impressos jocosos de José Daniel Rodrigues da Costa no triénio liberal e no período conducente à guerra civil. Rodrigues da Costa (1755?1756?-1832) foi, provavelmente, o autor mais prolífico das letras portuguesas do seu tempo: poeta, dramaturgo, redator, editor, além de empresário, funcionário do fisco, oficial de milícias e, sempre que a oportunidade se oferecia, vendedor dos seus folhetos. No Almocreve de Petas e restantes periódicos, o humor é por ele utilizado de forma sistemática como recurso de uma crítica de costumes ao serviço de um conformismo social e político. A partir de 1820, porém, os impressos de Costa tomam posição na esfera pública. Adere, com aparente entusiasmo, à nova situação (O prazer dos Luzitanos na Regeneração da sua Patria; Portugal convalescido pelo prazer… na dezejada e feliz vinda do seu amabilissimo monarcha…; As amendoas dadas aos Corcundas). Mas, pouco depois, começa a mostrar sinais de distanciamento (Ideias vagas sobre varios assumptos…), sem, no entanto, perder a capacidade de auto-ironia: “No grande labyrintho de Periodicos, e outras obras analogas ao tempo, em que em todos elles leio infinitas palavras acabadas em ão, e outras em ismo, por exemplo Nação, Constituição, Proclamação, Regeneração, etc. e de mistura Patriotismo, Rigorismo, Egoismo, Dispotismo, peço a Deos Nosso Senhor me não leve deste cançado Mundo sem encontrar nestes Papeis algumas palavras que acabem em Ento, verbi gratia Restabelecimento, Alimento, Contentamento, e principalmente Pagamento, que por este ser a mola real da maior parte das cousas, choro muito a sua falta” (Papeis Contra Papeis, ou Queixas de Apollo para Açoute de Máos Poetas, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1820). José Daniel Rodrigues da Costa acaba por juntar-se aos adversários do constitucionalismo (Entrada que deu no inferno a ilustrissima… sra. dona Constituição… em 1823; Na queda de Cadiz: a impostura do systema passado), tornando-se um porta-voz do miguelismo. No triénio vintista e no período que se lhe seguiu até à guerra civil, os folhetos jocosos de Costa ocupam um lugar na esfera pública na luta pela orientação da opinião pública num determinado sentido político: a contra-revolução. A crítica de costumes levada a cabo por José Daniel Rodrigues da Costa, tão ao gosto dos leitores que justificou reedições sucessivas até meados do século XIX, circulou com o mesmo sucesso editorial no Antigo Regime, no triénio vintista, no absolutismo pós- Vilafrancada, na primeira vigência da Carta Constitucional, no miguelismo e, já depois da morte do autor, no liberalismo pós-Guerra Civil, no setembrismo, no cabralismo e na Regeneração. Gerações de leitores apropriaram-se das fórmulas jocosas de José Daniel. Comum à forma como ridiculariza os alvos que, de algum modo, questionam a padronização dos costumes, sobressai o preconceito contra o outro, um preconceito sobretudo social, sustentáculo do conformismo político que marca a linha editorial dos seus periódicos. Mas a crítica jocosa do novo e da mudança (incluindo a mobilidade social) tem como corolário a possibilidade de conceber o outro e a mudança. Sobretudo numa época como aquela que teve como catalisador a Revolução de 1820.

Palavras-chave:

Revolução de 1820, José Daniel Rodrigues da Costa, Lutas liberais, Humor studies, Folhetos jocosos, Sátira social


This paper intends to approach the humorous periodicals and leaflets by José Daniel Rodrigues da Costa from the Liberal revolution of 1820 until the outbreak of the Civil War in Portugal. Costa (1755?1756?-1832) was one the most prolific authors of his time: poet, playwright, reporter and editor, besides earning his living as a businessman, a civil servant and a military officer, as well as, occasionally, the salesman of his own literary productions. In Almocreve de Petas (Pedlar of fibs) and other periodicals, Costa resorts systematically to humour in order to convey a criticism of ways and manners in line with social and political conformity. From the revolution of August 1820 onwards, his leaflets take an openly political stand in the public sphere – O prazer dos Luzitanos na Regeneração da sua Patria (The Lusitanians’ pleasure in the Regeneration of their Fatherland); Portugal convalescido pelo prazer… na dezejada e feliz vinda do seu amabilissimo monarcha… (Portugal convalesced by her pleasure… in the desired and happy homecoming of her most beloved Monarch…); As amendoas dadas aos Corcundas (Almonds given to the Hunchbacks). However, Costa soon begins to distance himself from the new government as in Ideias vagas sobre varios assumptos… (Vague ideas on various subjects…) although he keeps his knack to self-irony, as in Papeis Contra Papeis, ou Queixas de Apollo para Açoute de Máos Poetas (Papers agains papers, or Complaints of Apollo as the scourge of bad poets). Costa eventually joins the enemies of Constitutionalism: Entrada que deu no inferno a ilustrissima… sra. dona Constituição… em 1823 (Entrance in hell by her most illustrious Lady Dona Constituição in 1823); Na queda de Cadiz: a impostura do systema passado (The fall of Cadiz: the imposture of the previous system) becoming yet another mouthpiece of Dom Miguel’s Absolutism. From the end of the first three years of Liberal régime on, the jocular printed leaflets of Rodrigues da Costa play a role in the struggle to win over the public opinion for the counter-revolution. The criticism of manners undertook by José Daniel Rodrigues da Costa with a success that required consecutive reprints until mid-nineteenth century circulated through the Ancien Régime, the three-year period after the Revolution of 1820, the post-revolutionary Absolutism, the first enforcement of the Constitutional Charter, Dom Miguel’s rule and, after Costa’s death, the Civil War and the Constitutional Monarchy up to the 1850s. Generations of readers appropriated Costa’s jocular formulae. Prejudice, particularly social prejudice, was the common feature of the way he ridiculed his targets, those who questioned the standardisation of manners. That prejudice was one of the pillars of political conformity, a tenet of the editorial line of Costa’s periodicals. But the jestful critique of change (including social mobility) supposes the possibility of conceiving otherness and change. Especially in times which had the Revolution of 1820 as a catalyst.

Keywords:

Revolution of 1820, José Daniel Rodrigues da Costa, Civil War in Portugal, Humor studies, Humorous periodicals, Social satire