A «orquestra satírica» de Francisco de Assis Mendonça e Castro: o humor de um legitimista disfarçado de liberal

Francisco de Assis Castro e Mendonça’s «satirical orchestra»: the humour of a legitimist disguised as a liberal

Patrícia Gomes Lucas
Instituto de História Contemporânea, NOVA FCSH

O período que se seguiu à Revolução Liberal de 1820 ficou marcado pela renovação da cultura política em Portugal, estimulada pelos ideais de liberdade, igualdade e representação popular, retirados do exemplo da Revolução Francesa. Além disso, durante o Vintismo verificou-se um extenso desenvolvimento da imprensa e, de maior interesse para o caso em estudo, das publicações periódicas em Portugal. A nova legislação de imprensa de 1821, que retirou a condição de censura prévia à publicação de obras, e a liberdade que esta trouxe, permitiram que os autores usassem livremente discursos satíricos como mecanismo de comentário político. O humor vinha tanto do sector liberal como de elementos conservadores e contra-revolucionários, mas tinha particular ênfase nos últimos, pela nova possibilidade de criticar o regime político vigente. É por isso que vemos, durante os anos do Vintismo, ganhar relevo figuras como José Agostinho de Macedo, autor de textos marcantes pela sua agressividade e ironia. Um periodista relevante destes anos é Francisco de Assis Castro e Mendonça. Médico de formação, Castro e Mendonça estivera próximo da cultura conservadora desde a passagem pela Universidade de Coimbra, e mesmo antes: era irmão de José da Gama e Castro, um dos mais relevantes teóricos do tradicionalismo. Apesar de frequentemente referida a propósito da imprensa vintista e do humor, a obra de Castro e Mendonça não tem sido alvo de análises detalhadas, em especial os seus textos humorísticos de 1822 e 1823: para além de A facecia liberal e de Somnambulismo do solitario da facecia, Castro e Mendonça produziu um conjunto de jornais «musicalmente» inspirados, O Rabecão, A Sega-Rega, Gaita, O Serpentão e A Sanfona, repletos de humor e ironia. Nestes textos, Castro e Mendonça conseguiu criar um espaço para criticar o novo regime liberal, mas também um meio de transmissão da ideologia conservadora, ainda que de forma algo disfarçada: Castro e Mendonça optou por não se afirmar totalmente como absolutista, revelando um posicionamento ambíguo e complexo, que haveria de manter em décadas seguintes. Propomo-nos, por isso, estudar as publicações dirigidas por Castro e Mendonça e as formas humorísticas que encontrou para descrever a realidade portuguesa de um período de transição política e social. Pretendemos examinar o humor enquanto arma de um conflito político, avaliando o papel que este tipo de publicações teve na construção da opinião pública da época, e a forma como conseguiram conquistar um espaço próprio na imprensa periódica.

Palavras-chave:

Humor, Imprensa satírica, Cultura política, Vintismo


The period following the Liberal Revolution of 1820 was marked by the renewal of political culture in Portugal, stimulated by the ideals of freedom, equality and popular representation, taken from the example of the French Revolution. In addition, during Vintismo there was an extensive development of the press and, of greater interest for the case under study, of the periodical publications in Portugal. The new 1821 press legislation, which removed the condition of censorship prior to the publication of works, and the freedom it brought, allowed authors to freely use satirical speeches as a mechanism for political commentary. The humor came both from the liberal sector and from conservative and counter-revolutionary elements, but had particular emphasis on the latter, due to the new possibility of criticizing the current political regime. That is why we see, during the years of Vintismo, figures like José Agostinho de Macedo, author of texts marked by his aggressiveness and irony, gain prominence. A relevant journalist of these years is Francisco de Assis Castro e Mendonça. A physician by training, Castro e Mendonça had been close to conservative culture since his time at the University of Coimbra, and even before: he was the brother of José da Gama e Castro, one of the most relevant theorists of traditionalism. Despite being frequently referred to in relation to the vintista press and humor, the work of Castro and Mendonça has not been the subject of detailed analysis, especially their humorous texts from 1822 and 1823: in addition to A facécia liberal and Somnambulismo do solitario da facecia, Castro e Mendonça produced a set of newspapers «musically inspired», O Rabecão, A Sega-Rega, Gaita, O Serpentão and A Sanfona, full of humor and irony. In these texts, Castro and Mendonça managed to create a space to criticize the new liberal regime, but also as a means of transmitting the conservative ideology, albeit in a somewhat disguised way: Castro e Mendonça chose not to assert itself completely as an absolutist, revealing an ambiguous and complex position, which would be maintained in the following decades. Therefore, we propose to study the publications directed by Castro and Mendonça and the humorous forms he found to describe the Portuguese reality of a period of political and social transition. We intend to examine humor as a weapon of political conflict, assessing the role that this type of publications played in the construction of public opinion at the time, and the way they managed to conquer their own space in the periodic press.

Keywords:

Humor, Satirical press, Political culture, Vintismo