O “Reino da Opinião Pública” e a Independência do Reino do Brasil

Marco Morel
Professor do Departamento de História/IFCH – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

O “Reino da Opinião Pública” remete a um vocabulário político que desempenhou papel destacado na formação de espaços públicos de discussão e de uma nova legitimidade nas sociedades ocidentais a partir de meados do século XVIII, materializando-se, sobretudo, na palavra impressa. O surgimento da imprensa periódica no Brasil em 1808 não se deu numa espécie de vazio cultural, mas em meio a uma densa trama de relações e formas de transmissão já existentes, na qual a imprensa se inseria. A circulação de palavras (faladas, manuscritas ou impressas) não se fechava em fronteiras sociais e perpassava amplos setores da sociedade. A primeira geração da imprensa periódica produzida no território brasileiro não surge numa gestação extemporânea (em geral associada à noção de atraso), mas baseada em experiências perceptíveis. Havia uma tradição de atividades impressas pela nação portuguesa. A imprensa de opinião entre meados do século XVIII e começo do XIX fez entrar em cena uma figura de personagem público até então inexistente na América portuguesa: o redator panfletário. Ocorrem importantes mudanças nos espaços de transmissão da palavra pública, inclusive o surgimento de novas sociabilidades. O momento da emergência de uma moderna Opinião Pública no Reino do Brasil situa-se nos anos 1820 e 1821. O advento formal da liberdade de imprensa está relacionado ao processo de Independência nacional, discussão que inicialmente ocorria em espaços informais e que, paulatinamente, ocupou a via impressa.


The “Kingdom of Public Opinion” and the Independence of the Kingdom of Brazil The “Kingdom of Public Opinion” refers to a political vocabulary that played a prominent role in the formation of public spaces for discussion and new legitimacy in Western societies from the mid-eighteenth century onwards, materializing above all in the printed word.  The emergence of the periodic press in Brazil in 1808 did not take place in a kind of cultural vacuum, but in the midst of a dense network of pre-existing relations and forms of transmission, in which the press was inserted. The circulation of words (spoken, handwritten or printed) did not close on social frontiers and permeated broad sectors of society. The first generation of the periodic press produced in the Brazilian territory does not appear in an extemporaneous gestation (usually associated to the notion of delay), but based on perceptible experiences. There was a tradition of activities printed by the Portuguese nation. The press of opinion between the middle of the eighteenth century and the beginning of the nineteenth brought to the scene a figure of public character that until then did not exist in Portuguese America: the pamphleteer redactor. Important changes occur in the spaces of transmission of the public word, including the emergence of new sociabilities. The moment of the emergence of a modern Public Opinion in the Kingdom of Brazil is in the years 1820 and 1821. The formal advent of freedom of the press is related to the process of national independence, a discussion that initially occurred in informal spaces and that, gradually, occupied the printed form.