Lisboa, Rio de Janeiro, Moçâmedes: política e negócios nas conexões atlânticas em meados do século XIX

Lisbon, Rio de Janeiro, Moçâmedes: politics and business in the Atlantic connections in the nineteenth century

Maria Luiza Ferreira de Oliveira
Departamento de História – EFLCH-UNIFESP

Muitos dos homens envolvidos no esforço de colonização de Moçâmedes participaram das lutas de 1820. A ideia de modernizar o projeto colonial com a atuação da religião, da educação, dos saberes técnicos e da economia política estava em pauta e mobilizava os debates. Ao mesmo tempo, era reiterada a escravidão em Angola, assim como viabilizada, de forma sistêmica, a exploração da mão de obra dos libertos – absolutamente fundamental para a ‘invenção’ de Moçâmedes. Para garantir a presença portuguesa no sul de Angola, era também essencial o poderio militar, organizado em larga medida com base nos degredados e na aliança com os sobas locais, recursos secularmente utilizados. Em 1854, o governador e comandante de Moçâmedes, o engenheiro Fernando da Costa Leal, admirava a colonização francesa na Argélia, separando a velha da nova colonização. Refletir sobre a “Sintra da África” explicita as contradições envolvidas no processo e mostra em quais dimensões foram redesenhadas as conexões atlânticas entre o Brasil, Portugal e a África, pondo em campo e em disputa as noções de império e de nação. Queremos problematizar a atuação de três homens envolvidos nesse processo e refletir sobre o silenciamento das contradições operado naquele contexto. No Rio de Janeiro, o cônsul geral de Portugal Comendador João Baptista Moreira, negociante e traficante de escravos que soube mobilizar de forma sagaz o passado de lutas pela causa liberal; em Lisboa o Chefe da Repartição de Angola, funcionário público ilustrado, historiador e deputado por Angola Simão José da Luz Soriano; em Moçâmedes, o senhor de engenho escravista Bernardino Figueiredo, que tendo lutado pela causa absolutista, foi em 1838 para o Brasil, morou por 10 anos no Recife, onde publicou o aclamado “primeiro romance pernambucano”. Pretendemos refletir sobre os projetos e a atuação de homens que compartilharam campos de batalha, negócios, livros, postos no governo, bailes, publicaram folhetos e incendiaram polêmicas, assim como buscaram novos saberes técnicos que pudessem otimizar o esforço colonizador. Acompanhando momentos decisivos de suas trajetórias, a questão da nacionalidade será problematizada, assim como poderemos perceber diferentes expectativas em relação aos desenhos e aos sentidos do Império colonial português.

Palavras-chave:

Libertos, Escravidão, Moçâmedes, Conexões atlânticas


Many of the men involved in the Moçâmedes colonization effort participated in the struggles of 1820. The idea of modernizing the colonial project with the action of religion, education, technical knowledge, and political economy was on the agenda and mobilized the debates. At the same time, they reiterated slavery in Angola, as well as systemically making possible the exploitation of the freedmen’s labor – absolutely fundamental to Moçâmedes ‘invention’. In order to secure the Portuguese presence in southern Angola, military power was also essential, organized largely on the basis of the degredados (banished) and the alliance with local sobas, secularly used resources. At the same time, in 1854, the governor and commander of Moçâmedes – Fernando da Costa Leal – was an engineer and admired the French colonization in Algeria, separating the old from the new colonization. Reflecting on the “Sintra of Africa” spells out the contradictions involved in the process and shows how the Atlantic connections between Brazil, Portugal and Africa have been redesigned, putting the notions of empire and nation in the field and in dispute. We will problematize the actions of three men involved in this process. In Rio de Janeiro: the dealer, consul of Portugal and slave trader João Baptista Moreira; in Lisbon: the Head of the Angolan Bureau, an illustrated civil servant, historian and deputy for Angola Simão José da Luz Soriano; In Moçâmedes: the slave-owner Bernardino Figueiredo (lived for 10 years in Recife, where he published the acclaimed “first Pernambuco novel”). Following the decisive moments of their trajectories, the question of nationality will be problematized, as we will be able to perceive different expectations regarding the designs and meanings of the Portuguese pluricontinental imperial state.

Keywords:

Freed Africans, Slavery, Moçâmedes, Atlantic commerce