Liberalismo e opinião pública – representações da imprensa liberal britânica em torno da Revolução portuguesa de 1820

Liberalism and public opinion – representations of the British liberal press on the Portuguese revolution of 1820

Pedro Couceiro
Instituto Politécnico de Bragança – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (CITCEM)
Elisabete Mendes Silva
Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa (CEAUL)

A revolução portuguesa de 1820 coincide com um período de maior radicalização ideológica do liberalismo na Grã- Bretanha que marcou declaradamente o confronto político entre conservadores (Tories) e liberais (Whigs). Este debate tornou-se transversal a toda a sociedade que, de uma forma concertada, assumiu formas de protesto mais visíveis e marcantes, chamando a atenção não apenas do governo, mas igualmente da opinião pública. A fermentação de ideais liberais consubstanciados, por exemplo, na liberdade de expressão e imprensa e maior representatividade parlamentar resultou em episódios como o Massacre de Peterloo em agosto de 1819, liderados por movimentos radicais apoiados por membros da sociedade que prosperaram no contexto da revolução industrial e reivindicaram a reforma do sistema eleitoral, ainda que enfrentando o statu quo vigente liderado por uma classe proprietária. Por seu turno, a aproximação político-militar e a interdependência económica que caracterizou as intensas relações luso-britânicas desde o século XVIII justificou que a imprensa britânica acompanhasse com particular interesse toda a evolução política de Portugal. As notícias chegavam à imprensa britânica através de cartas privadas, de despachos oficiais ou através de outros jornais como a Gazeta de Lisboa ou jornais de Paris e Madrid. Muito provavelmente o conhecimento da revolução em Portugal não era precisa nem imparcial, mas, no entanto, era crucial informar sobre este evento uma vez que, aos olhos dos defensores das ideias liberais e dos jornais com linhas editoriais de pendor liberal e/ou radical, o mesmo simbolizava liberdade e a defesa de valores constitucionais. Alguns destes jornais ou periódicos adotaram uma posição mais parcial, como é o exemplo do periódico Unitarista mensal, Monthly Repository. Na sua edição de setembro de 1820 publicou um artigo que favorecia o contágio da liberdade que finalmente havia chegado a Portugal, culpando os britânicos pelo seu poder abusivo sobre Portugal e os portugueses, cuja riqueza servia apenas para encher os cofres de um monopólio cruel e despótico. Assim, o estudo sobre esta imprensa justifica-se ao pretendermos entender de que forma a revolução liberal portuguesa teve destaque na imprensa britânica e a que tratamento editorial obedeceu, não sendo de excluir totalmente a possibilidade de este processo revolucionário se ter constituído como um reforço ideológico para a campanha dos reformistas ingleses. Ao mesmo tempo, realçaremos a disseminação das ideias liberais na Europa, de uma forma mais geral, e em Portugal, mais especificamente. Partindo dama análise de um corpus documental constituído por alguns dos principais títulos da imprensa liberal britânica (e.g. Morning Chronicle, Globe, Examiner, Star (London), The Statesman, Cobbett’s Weekly Political Register), entre agosto de 1820 e agosto de 1821, o objetivo central do nosso estudo consiste em contribuir para o entendimento que os britânicos foram compondo da revolução liberal de 1820 em Portugal.

Palavras-chave:

Liberalismo, Imprensa, Reforma parlamentar, Revolução liberal, Portugal


The Portuguese Revolution of 1820 concurs with a period of liberal radicalism in Britain that avowedly set the political skirmish between Tories and Whigs. This crosscutting and organised debate became more direct and clean-cut as more radical protests gained visibility and thus called attention not only of the government but also of the public opinion. On the one hand, the exultation of liberal principles grounded in the freedom of expression and of the press, as well as the demands for the extension of the suffrage, culminated in episodes such as the Peterloo Massacre in August 1819. A wealthy new middle class that flourished in the context of the Industrial Revolution, vindicating a reform of the electoral system, supported these radical movements, despite the wealthy landowners’ opposition, still defining the prevailing political and social status quo. On the other hand, the political and military contact and the economic interdependence that had defined the intense Portuguese-British relations since the 18th century represented a major reason why the British Press reported the political evolution in Portugal with particular interest. Therefore, the study on British newspapers and periodicals becomes relevant as we intend to perceive the way the Portuguese liberal revolution was covered by the British press. News arrived either by private letters, via official dispatches or through other newspapers such as the Gazette of Lisbon or the Paris or Madrid Papers. Most probably the knowledge of the entire situation was not totally accurate or even objective, but, nonetheless, news from Portugal were worth reporting as the revolution symbolised liberty and constitutionalism, highly praised by liberal advocates and liberal newspapers in Britain. Some of these newspapers or periodicals took a more biased stance, such as the Monthly Repository, a monthly Unitarian periodical, that, in its edition of September 1820, published an article favouring “the infection of liberty” that “has reached this country” and blaming the British for their abusive power upon Portugal and the Portuguese whose wealth “only served to fill the coffers of a cruel and grinding monopoly”. Underlining the different editorial guidelines, we shall analyse the possibility for the ideological influence of newspapers on the liberal parliamentary reform gathering momentum in Britain and, at the same time, highlight the dissemination of liberal ideas in Europe, more generally, and in Portugal, more specifically. Covering one year publications (August 1820 until August 1821), and focussing on a documentary corpus comprised of some of the major British liberal newspapers of the period (e.g. Morning Chronicle, Globe, Examiner, Star (London), The Statesman, Cobbett’s Weekly Political Register), the main aim of our paper is to provide some understanding on the insights of the British liberal and radical press into the liberal revolution of 1820 in Portugal.

Keywords:

Liberalism, Parliamentary reform, Press, Liberal revolution, Portugal