A terra prometida do absolutismo?: Exílio de Dom Miguel no Império Austríaco e a percepção da sua personalidade e habilidades pelo príncipe Metternich

The promised land of absolutism? : Don Miguel’s exile in the Austrian Empire and perception of his personality and abilities by Prince Metternich

Oliver Zajac
Institute of History, Slovak Academy of Sciences

Em 5 de agosto de 1852, nasceu o primogênito do rei português destronado Miguel I., a filha Maria. Curiosamente, entre os primeiros que foram informados sobre o acontecimento, foi o ex-chanceler austríaco Prince Metternich. Na carta escrita naquele mesmo dia, Miguel não apenas expressou sua alegria de ser pai, mas também enfatizou fortemente sua amizade cordial com o destinatário. O rei destronado era desde jovem um verdadeiro admirador de Metternich, e o tempo que passou no exílio na corte vienense entre 1824 e 1827 apenas fortaleceu a sua admiração. Portanto, não foi surpreendente que, um ano depois, ao nascer do seu primeiro filho, Metternich estava novamente entre os primeiros a ser informado. No entanto, a opinião de Miguel em relação ao chanceler, será que a sua permanência no império austríaco se assemelha à visita da terra prometida de ordem conservadora, que ele defendia fortemente? Para analisar os problemas selecionados, relacionados ao exílio de Miguel e, a percepção das autoridades austríacas em relação a isso, especialmente pelo príncipe Metternich, conduzi a pesquisa da correspondência de Metternich, bem como seus relatórios oficiais ao consulado austríaco em Lisboa e vice-versa. Miguel talvez tenha escolhido Viena em 1824 como seu destino final, porque se assemelhava a um contexto em que seus princípios políticos encontravam apoio, mas seu exílio, que foi uma consequência direta da complicada luta política pela coroa portuguesa, colocou a diplomacia austríaca em frente de uma tarefa desconfortável. A questão sobre sua permanência (e o seu futuro) na monarquia de Habsburgo não era apenas relevante em relação a esse assunto, mas era uma complexa questão da política europeia. A responsabilidade de guiar e controlar Miguel e sua suíte foram atribuídos pelo imperador Francisco I a Metternich, cuja lembrança de Miguel no momento em que se conheceram é bastante falante. Segundo o chanceler austríaco, Miguel estava em estado selvagem e com a eminente ajuda do conde Heinrich Bombelles, ele teve que ensinar o príncipe como um estudante. Ele era quase analfabeto e não compartilhava nenhum conhecimento sobre etiqueta. O pai de Miguel, rei João VI, tentou manter pelo menos algum controle sobre as ações de seu filho e, por isso, nomeou o conde do Rio Major como tutor. No entanto, Conde morreu logo depois e, por consequência, não foi capaz de ajudar as autoridades austríacas em casos como a viagem de Miguel à Hungria ou a questão da sua decisão (não) planejada de se casar. Embora, na opinião de Metternich, o príncipe português tenha feito um progresso em seu comportamento durante seu período em Viena, o chanceler ainda tinha certeza de que não seria capaz de usufruir da oportunidade que lhe fora dada em 1827 – restaurar a monarquia portuguesa de maneira sólida e durável. Eles podem compartilhar uma amizade mútua, talvez até opinar da mesma forma sobre algumas questões políticas, mas as opiniões extremamente conservadoras de Miguel, a sua natureza imprevisível e a sua submissão à manipulação o depreciaram como um aliado político de confiança aos olhos do chanceler austríaco. Em sua carta ao conde Bombelles de 1828, Metternich chegou a profetizar que Miguel seria conhecido como Usurpador.

Palavras-chave:

Miguel I, Klemens Metternich, Império austríaco, Exílio, Heinrich Bombelles


On the 5th of August, 1852, Maria, the first-born child of the dethroned Portuguese king, Miguel I, was born. Interestingly, among the first to be informed about this was the former Austrian chancellor, Prince Metternich. In the letter written on the same day, Miguel did not only express his joy at becoming a father, but also strongly emphasises his cordial friendship with the addressee. The dethroned king was, from a young age, a true admirer of Metternich and the time he spent in exile at the Viennese court between 1824-1827 only strengthened his admiration. It was, therefore, not a surprise that, when his first son was born a year after that, Metternich was once again among the first to be informed. Nevertheless, regardless Miguel´s opinion of chancellor, did his stay in the Austrian empire resemble a visit of the promised land of conservative order, which he strongly advocated? To analyse the selected problems of Miguel´s exile and their perception by the Austrian authorities, especially by Prince Metternich, I have conducted a research of Metternich´s correspondence as well as his official reports to the Austrian consulate in Lisbon, and vice versa. Miguel possibly chose Vienna in 1824 as his final destination because it seemed likely to be a place where his political principles would find support, but his exile, which was a direct consequence of the complicated political struggle for the Portuguese crown, faced Austrian diplomacy with an uneasy task. The question about his stay (and future) in the Habsburg monarchy was not only relevant in his matter, but it was also a complex question of European policy. Responsibility to guide and control Miguel and his suite were assigned by Emperor Francis I to Metternich, whose recall about Miguel at the time when they first met is quite garrulous. According to the Austrian Chancellor, Miguel was in the state of a savage and, with the eminent help of Count Heinrich Bombelles, he had to teach the prince like a schoolboy. He was almost analphabetic and did not share any knowledge about etiquette. Miguel´s father, King Joao VI, also tried to maintain at least some control of his son´s actions and he nominated Count de Rio Major as a tutor. However, the Count died soon after and, therefore, was not able to help Austrian officials with cases like Miguel´s trip to Hungary or the question of his (un)planned marriage. Although, in Metternich´s opinion, the Portuguese prince had made progress in his behaviour during his time in Vienna, the chancellor was still fairly convinced that he would not be able to accomplish the opportunity, which he was given in 1827, to restore the Portuguese monarchy to a solid and durable basis. They might have shared a mutual friendship, maybe even the same views on some political issues, but Miguel´s extremely conservative opinions, unpredictable nature and his yielding to manipulation, depreciated him as a reliable political ally in the eyes of the Austrian chancellor. In his letter to Bombelles in 1828, Metternich even prophesied that Miguel would be known as a Usurper.

Keywords:

Miguel I, Klemens Metternich, Austrian Empire, Exile, Heinrich Bombelles