A revolução liberal de 1820 na história externa da língua portuguesa

The liberal revolution of 1820 in the external history of the Portuguese language

Telmo Verdelho
Universidade de Aveiro; Academia de Ciências de Lisboa

A Revolução liberal de 1820 foi um acontecimento que teve grande influência no percurso do português, na história externa da língua, modificando o seu uso pelo novo condicionamento geográfico, político e sociológico; e na história interna, generalizando alterações na estrutura fonética e gramatical, e inovando e enriquecendo a componente lexical e semântica. No âmbito da história externa, assinalam-se sobretudo três importantes aspetos: o redimensionamento político e internacional, pela independência do Brasil; o rápido e persistente alargamento do espaço de circulação da palavra pública; e a crescente exercitação escolar, acompanhada pela edição de textos pedagógicos e metalinguísticos. A independência do Brasil (7.9.1822), acrescentou uma dimensão transnacional ao português e acentuou a sua transumância para um novo horizonte geográfico e demográfico. A separação política e o natural distanciamento, que reduziu a comunicação entre os dois países, repercutiu-se na variação linguística e motivou uma cultivada deriva normativa, nos usos familiares, populares e regionais, e uma criatividade, eventualmente diferenciadora, na produção escrita. Em Portugal e também no Brasil, a revolução liberal alterou consideravelmente o espaço de circulação da palavra pública. Verificou-se uma industriosa expansão da imprensa periódica e panfletária, noticiosa e propagandística; desenvolveu-se a oratória profana, na assembleia legislativa; Incrementou-se a tradução e publicação de textos literários e doutrinários que enriqueceram a língua com o aportuguesamento de palavras e conceitos estrangeiros; e sobretudo, alargou-se a escolarização e incentivou-se o acesso à escrita e à leitura. Foi fator importante, na vivência da língua, a persistente e renovada produção literária e metalinguística, correspondendo a uma generalizada utilização dos dicionários (monolingues e bilingues), dos manuais de gramática e de outras obras didáticas e normativas. O texto literário, poético e ficcional, atualizado pelo cânone romântico, e dinamizado pela urgência da comunicação funcional e militante, tornou-se mais próximo do uso conversacional da língua e das motivações quotidianas, facilitou a legibilidade e beneficiou da crescente procura e da progressiva democratização cultural. No âmbito da interação linguístico-literária surgem novas figuras e novos tipos sociais nas galerias da palavra pública. Entre os arautos da palavra mantém-se ainda o pregador, o missionário, o “filósofo” e o poeta, mas ganha mais relevo o “escritor” e o “ideólogo”; surge o “orador político”, e começa a destacar-se, com um perfil inédito, o “jornalista” ou “periodista” (em modo disfémico – o “periodiqueiro”), e de modo mais abrangente, recria-se um novo tipo, o “homem de letras”, com credenciado prestígio social e indiferenciada pertença profissional e académica.

Palavras-chave:

Vintismo, História da língua, Jornalismo, Independência do Brasil


The Liberal Revolution of 1820 was an event that had a great influence on the course of the external history of the Portuguese language, changing its use by the new geographical, political and sociological conditioning; and additionally, in the internal history, generalizing changes in phonetic and grammatical structure, and innovating and enriching the lexical and semantic component. In the context of external history, three important aspects are highlighted: the political and international resizing, caused by the independence of Brazil; the rapid and persistent widening of the circulation space for public speaking; and the growing school exercise, accompanied by the edition of pedagogical and metalinguistic texts. Brazil’s independence (7.9.1822), added a transnational dimension to Portuguese and accentuated its transhumance towards a new geographical and demographic horizon. The political separation and the natural distance, which reduced communication between the two countries, had repercussions on linguistic variation and motivated a cultivated normative drift, in family, popular and regional uses, and also motivated a new creativity, possibly differentiating, in written production. In Portugal and also in Brazil, the liberal revolution considerably changed the circulation space of the public word. There was an industrious expansion of the periodical and pamphlet press, news and propaganda; profane oratory was developed in the legislative assembly; there was an increase in the translation and publication of literary and doctrinal texts that enriched the language with the contribution of foreign words and concepts; and above all, schooling was extended and access to writing and reading was encouraged. In the language, the persistent and renewed literary and metalinguistic production was an important factor, corresponding to a widespread use of dictionaries (monolingual and bilingual), grammar manuals and other didactic and normative works. The literary, poetic and fictional text, updated by the romantic canon, and energized by the urgency of functional and militant communication, became closer to the conversational use of language and everyday motivations, facilitated readability and benefited from the growing demand and progressive cultural democratization. In the context of linguistic-literary interaction, new distinguished figures and new social types appear in the public speaking galleries. Among the heralds of the word, the former preacher, the missionary, the “philosopher” and the poet still remain, but the “writer” and the “ideologist” are now more prominent; the “political speaker” emerges, and the “journalist” or “periodist” (in a dysphemic way – the “periodiqueiro”) begins to stand out, and more broadly, a new type is recreated, the “homem de letras”, with accredited social prestige and undifferentiated professional and academic belonging.

Keywords:

Liberal Revolution, History of the Language, Journalism, Independence of Brazil