Tempos de incerteza: A Mesa do Bem do Comum dos Mercadores e a agenda liberal

Uncertain Times: The Mesa do Bem do Comum dos Mercadores and the liberal agenda

Miguel Dantas da Cruz
Instituto de Ciências Sociais – Universidade de Lisboa

Este texto debruça-se sobre as corporações de mercadores e sobre a sua adaptação a uma conjuntura política difícil que culmina com a Revolução Liberal. Reorganizados em linhas bem rígidas no rescaldo do Terramoto de 1755, os interesses corporativos do comércio estabelecido de Lisboa perduraram até ao triunfo final do Liberalismo (1834), resistindo de permeio à gradual difusão de um pensamento económico que lhes era profundamente hostil. Este texto segue na peugada da historiografia mais atual e mais internacional, que rejeita a ideia da persistente decadência das instituições corporativas na Europa e do seu inerente conservadorismo. A análise do quotidiano da Mesa do Bem Comum dos Mercadores de Retalho, instituição de suporte jurídico e onde se resolviam muitos dos problemas que afetavam os lojistas de Lisboa, mostrará até que ponto esta comunidade se conseguiu manter fechada e protegida de interferências exteriores, precisamente como os seus estatutos prescreviam. As escrituras de fiança serão a este respeito decisivas. Igualmente importantes serão as petições dirigidas às autoridades portuguesas durante a década de 1820, e que revelam a forma como o grupo se revia a si mesmo, se autorrepresentava e se defendia perante um cenário político muito incerto.

Palavras-chave:

Corporações, Privilégios comerciais, Comércio livre, Desenvolvimento económico, Escrituras


This communication revisits the Portuguese corporations of retailers and their adaptation to an arduous political environment that culminates with the Liberal Revolution. Restructured on a rigid legal framework in the aftermath of the 1755 Earthquake, the corporate interests of Lisbon retailers withstood for almost 80 years, until the ultimate triumph of Liberalism (1834), resisting, in the meantime, to the gradual spread of an economic thought that was deeply hostile to them.       This communication tries to follow in the footstep of the more up-to-date and ground-breaking international literature, which challenges the inevitable decay of the corporate institutions in Europe and their inherent conservatism (the traditional and very whiggish approach). The exploration of the daily activities of the Mesa do Bem do Comum, the corporate institution of governance and where many of the problems affecting retailers were sorted out, will show to what extent this community has managed to remain closed and protected from outside interference, precisely as their statutes prescribed. Deeds records will be the decisive source. Equally important will be petitions addressing the Portuguese authorities during the 1820s, and which reveal how the group self-perceived itself and protected its interests against a very fluid political landscape.

Keywords:

Corporations, Commercial privileges, Free trade, Economic development, Public deeds