À procura da nação: a comunidade italiana em Lisboa e o exílio político na altura do vintismo

In search of the nation: the Italian community in Lisbon and political exile at the time of “vintismo”

Carmine Cassino
Centro de História da Universidade de Lisboa

As relações entre o reino de Portugal e a Península Itálica na primeira metade do século XIX podem ser definidas no quadro da história social e do pensamento político. De facto, a partir de 1821 Portugal torna-se lugar estratégico do exílio político italiano, no quadro das movimentações rumo à península ibérica, onde as experiências revolucionárias conseguem manter-se num tempo mais prolongado. Também nos anos seguintes, o país atlântico mantém-se entre as referências migratórias para as sensibilidades liberais italianas, não desempenhando um papel secundário em comparação com os grandes centros europeus como Londres e Paris, que recebem o maior número entre aqueles que fogem do fracasso das revoluções na península itálica. Aqui o século XIX é marcado pelo processo de formação de uma entidade estatal única no território da península, atrás do qual se desenvolve a importante questão da afirmação do princípio de nacionalidade, isto é, da construção e consagração de uma identidade transversal a todas as realidades políticas e culturais do heterogéneo panorama peninsular. Este movimento, de particular complexidade política e ideológica, é conhecido com o nome de Risorgimento. Veículo desta extensão de ideias e homens é a grande dimensão da emigração política: graças a esta diáspora o Risorgimento delineia-se como fenómeno claramente transnacional, que chega a interessar, de forma significativa, também o espaço geopolítico português. Ao lado desta emigração política existe uma dimensão que tem sido historiograficamente desconsiderada ou esquecida, a da emigração socioeconómica. De facto, na primeira metade de Oitocentos existe um fluxo migratório que leva muitos italianos a Portugal, onde em várias regiões do país – e particularmente na capital – persiste uma comunidade forte, coesa e com algum relevo na esfera económica. A recuperação da memória desta comunidade de dimensão sensível e o estudo da sua evolução socioeconómica tem representado as partes em falta tanto na reconstrução da história das relações luso- italianas daquela época, como da própria projecção lusitana do Risorgimento italiano. Isto porque há um plano de intersecção entre a comunidade do exílio político e a da emigração comum. De facto, os exilados que chegavam a Portugal e que aí permaneciam por um tempo variável não se relacionavam (a vários domínios) somente com os membros das elites políticas nacionais; na verdade eles imergiam numa realidade em que se manifestava uma importante presença italiana. Com esta comunidade – sobretudo a sediada em Lisboa – entram em contacto e nela começam a veicular o discurso político de que são portadores. Por sua parte, o conjunto de italianos residentes é animado por dinâmicas internas em que se delineia um sentido de pertença comum, uma identidade partilhada: esboçam-se os caracteres de uma verdadeira “pequena nação” italiana, que é um elemento fundamental no desenvolvimento de um amplo discurso “nacional”, ainda mais porque se realiza no estrangeiro, longe das fronteiras (naturais e políticas) daquela que será a pátria de um futuro ainda indeterminado, mas que aí começa a perceber-se e que assume sinais de inteligibilidade. A seguinte proposta visa explorar tais dinâmicas à respeito dos anos em que se concretizou a experiência liberal do vintismo.

Palavras-chave:

História social, História urbana, História do pensamento político, Exílio, Memória


Relationships between the kingdom of Portugal and the Italian Peninsula in the first half of the 19th century can be defined within the framework of social history and history of political thought. In fact, from 1821 onwards, Portugal became a strategic place for Italian political exile, in the context of movements towards the Iberian peninsula, where revolutionary experiences managed to remain in a longer period. Also in the following years, Portugal remains among the migratory references for the liberal Italian sensitivities, not playing a secondary role in comparison with greater European centers like London and Paris, which receive the greatest number among those fleeing the failure of revolutions in the Italian peninsula. Here the nineteenth century is marked by the process of forming a unique state entity in the territory of the peninsula, behind which the important question of affirming the principle of nationality develops, that is, of the construction and consecration of an identity transversal to all realities political and cultural aspects of the heterogeneous peninsular panorama. This movement, of particular political and ideological complexity, is known as Risorgimento. Vehicle of this extension of ideas and men is the great dimension of political emigration: thanks to this diaspora the Risorgimento is outlined as a clearly transnational phenomenon, which comes to interest, significantly, also the Portuguese geopolitical space. Alongside this political emigration there is a dimension that has historically been neglected or forgotten, that of socioeconomic emigration. In fact, in the first half of the nineteenth century there is a migratory flow that takes many Italians to Portugal, where in various regions of the country – and particularly in the capital – a strong, cohesive community with some relevance in the economic sphere persists. The recovery of the memory of this significant community and the study of its socioeconomic evolution has represented  the missing parts both in the reconstruction of the history of Luso-Italian relations at that time, as well as in the Lusitanian projection of the Italian Risorgimento. This is because there is a plan of intersection between the community of political exile and that of common emigration. In fact, the exiles who arrived in Portugal and who stayed there for a variable time did not relate (in several domains) only to the members of the national political elites; in fact, they immersed themselves in a reality in which an important Italian presence was manifesting. With this community – especially the one based in Lisbon – they come into contact and begin to convey the political discourse of which they are carriers. For their part, the group of resident Italians is animated by internal dynamics in which a sense of common belonging, a shared identity is outlined: the characters of a true Italian “small nation” are outlined, which is a fundamental element in the development of a broad “national” discourse, especially because it takes place abroad, far from the borders (natural and political) of what will be the motherland of a future that is still undetermined, but that begins to be perceived there and that takes on signs of intelligibility. The following proposal aims to explore such dynamics regarding the years in which the liberal experience of vintismo was realized.

Keywords:

Social History, Urban History, History of Political Thought, Exile, Memory