As políticas liberais e a sustentação do clero no bispado de Viseu, 1820-1910

Jaime Ricardo Gouveia
Centro de História da Sociedade e da Cultura – Universidade de Coimbra

A teoria política regalista, que tinha como intelectuais António Pereira de Figueiredo, Seabra da Silva e Ribeiro dos Santos, assumida pelos sucessivos governos liberais, foi responsável pelo aparecimento em Portugal de um Estado confessional. Destronou-se o vasto poder económico da Igreja e transformou-se a religião num mero instrumento do Estado. A “questão religiosa”, como ficou conhecida, saltou assim para o primeiro plano do combate ideológico. Com efeito, o decreto governamental publicado em 28 de Junho de 1821 inaugurava uma tendência política que, com alguns avanços e recuos, acabaria por enquistar durante todo o século XIX a forte interferência do governo na administração da vida religiosa do reino. Com o normativo constitucional vintista, nomeadamente a Constituição de 1822, a coroa ficaria investida do poder de apresentar benefícios eclesiásticos de padroado real, curados ou não curados, precedendo concurso e exame publico perante os prelados diocesanos. Esse direito, útil mas também oneroso, pressupunha conferir à coroa não apenas a capacidade de nomeação dos titulares dos benefícios paroquiais, mas também o dever de prover o seu sustento. O objetivo desta comunicação será o de procurar perceber quais as consequências dessa situação inaudita no bispado de Viseu no período compreendido entre 1820 e 1910, tratando de inquirir sobre que tipo de réditos tinha o clero viseense e de onde provinham.


The regalist political theory, which had intellectuals such as António Pereira de Figueiredo, Seabra da Silva and Ribeiro dos Santos, assumed by successive liberal governments, was responsible for the appearance in Portugal of a confessional state. The vast economic power of the Church was destroyed and religion became a mere instrument of the state. The “religious question,” as it became known, thus jumped to the forefront of ideological combat. Indeed, the government decree published on June 28, 1821, inaugurated a political tendency that, with some advances and setbacks, would eventually underline throughout the nineteenth century the strong interference of government in the administration of the religious life of the kingdom. With the Constitution of 1822, the crown would be invested with the power to present ecclesiastical benefits of royal patronage, curados or não curados, preceding public examination and examination before diocesan prelates. This useful but also onerous right presupposed conferring on the crown not only the capacity to appoint parish benefit holders but also the duty to provide for their support. The purpose of this communication will be to understand the consequences of this unprecedented situation in the bishopric of Viseu in the period between 1820 and 1910, trying to inquire about what kind of revenues the viseense clergy had and where they came from.