O que oferecia a Revolução Liberal aos homens de negócio do Antigo Regime? O caso dos rendeiros de dízimos

What did the Liberal Revolution offer to businessmen of the Old Regime? The case of the tithes’ contractors

Daniel Alves
IHC, NOVA-FCSH, Universidade Nova de Lisboa

O mundo de impostos, taxas, prestações e direitos que constituía parte da vida económica do Antigo Regime potenciava outro mundo de contratadores, proprietários e empreendedores que viviam da contratação, arrendamento e cobrança. Entre outros agentes destes dois mundos, os rendeiros de dízimos podem ser entendidos como um estudo de caso. A sua actividade cruzava-se, por exemplo, com a de proprietário ou foreiro de terrenos agrícolas, a de laboração de fábricas de moagem ou, ainda, a de cobrança de rendas alfandegárias. Actividades complementares que nas vésperas da Revolução Liberal em Portugal faziam adivinhar um mundo empreendedor por trás do sistema de cobrança da prestação eclesiástica. Um mundo selectivo ao nível da elite, onde se movimentavam largas dezenas de contos de réis, mas que não fechava as portas do negócio à intervenção de toda uma panóplia de indivíduos de vários estratos sociais e categorias profissionais. O Antigo Regime não reconhecia à maioria destes indivíduos, pertencessem ou não à elite dos rendeiros, direitos políticos. Não faziam parte das gentes da governança das terras e não tinham acesso aos cargos administrativos. Porém, possibilitava-lhes um mundo de negócios dinâmico. Por sua vez, o Liberalismo acenava-lhes, aparentemente, com uma contradição, pois se era a promessa de uma maior participação cívica, na esfera económica podia ser o fim de actividades muito rentáveis, onde se incluía o dízimo. O que tinha a Revolução Liberal para oferecer a estes indivíduos? Aderiram os mesmos ao novo regime? Foi importante o factor político ou o económico? Com base nos debates políticos da época e de dados económicos e sociais sobre a actividade de rendeiro de dízimos procurar-se-á dar resposta a estas questões.

Palavras-chave:

Rendeiros, Dízimos, Revolução, Negócios


The world of taxes, duties, benefits and rights that formed part of the economic life of the Ancient Régime enabled another world of contractors, owners and entrepreneurs who lived from hiring, leasing and collection. Among other agents of these two worlds, tithing tenants can be understood as a case study. Their activity was complementary of others, for example, as owners of agricultural land, owners of mills, or as collectors of customs revenues. Activities that, on the eve of the Liberal Revolution in Portugal, shown an entrepreneurial world behind the collection system of this ecclesiastical duty. A selective world at the elite level, where dozens of “contos de réis” were moving, but that did not close the doors of the business to the intervention of a whole panoply of individuals from various social strata and professional categories. The Old Regime did not recognize political rights for the majority of these individuals, whether or not they belonged to the elite of the tenants. They were not part of the people of land governance and had no access to administrative positions. But it enabled them to have a dynamic business world. Liberalism, on the other hand, seemed to present them a contradiction, for if it was the promise of greater civic participation but it could be the end of very profitable activities in the economic sphere, including the collection of tithes. What did the Liberal Revolution have to offer to these individuals? Have they adhered to the new regime? Was the political or economic factor important? Based on the political debates of the time and economic and social data on the activity of tithing tenants we will try to answer these questions.

Keywords:

Contractors, Tithes, Revolution, Business