Miguelismo e Jesuitismo: descontinuidade no processo político para o Liberalismo

Miguelism and Jesuitism: discontinuity in the political process for Liberalism

Francisca M. C. Branco Veiga
Centro de História da Universidade de Lisboa

A revolução de 1820 fazia prever uma viragem na política portuguesa, mas o liberalismo constitucional foi interrompido pelo absolutismo miguelista em 1828, baseado na aliança entre o Trono e o Altar, onde os Jesuítas voltam a ter um papel de relevo no reforço do Legitimismo. Em 1828 D. Miguel regressa a Portugal e, contrariamente ao prometido a seu irmão, em 23 de junho de 1828 foi proclamado rei pelas Cortes Gerais do Reino, anulando a vigência da Carta Constitucional e repondo as Leis Constitucionais tradicionais, perante a passividade europeia e contando com a intolerância política do Sumo Pontífice para com os ideais liberais e maçónicos. Para assegurar essa imagem unanimista de legitimidade dinástico-política foi necessário o apoio da Igreja Católica Romana e a restauração da Companhia de Jesus em Portugal. D. Miguel necessitava dos jesuítas como “bons formadores” e “educadores das mentes e das consciências” da juventude, baseados nos ideais que a tradicional monarquia ambicionava, isto é, uma sociedade legitimadora do status quo, com princípios sociopolíticos estáticos e que não contrariasse os princípios da fé que a Igreja Católica Romana estatuíra. Os jesuítas vão atuar em três vertentes principais: nos ministérios sacerdotais tradicionais (pregação, confissões, catequese…), nas missões junto da população (uma catequese adequada, tornava mais eficiente a ligação do povo à Igreja Católica (Altar) e ao próprio rei (Trono) e reforçava o ultramontanismo), e na atividade educativa da juventude. Para D. Miguel, tal como para os jesuítas, as missões, a catequese, o confessionário e a educação eram a base principal da manutenção da ordem social. Contudo, a alteração da conjuntura na Europa dos anos trinta é marcada pela subida ao trono de um «rei burguês» na França, pela mudança do ministério inglês para tendências liberais, e pela subida ao trono da regente D. Maria Cristina, de Espanha. A 3 de março de 1832 D. Pedro reassume a regência na ilha Terceira (Açores). Com D. Pedro, a convicção de que a existência das ordens regulares era necessária à religião e útil ao Estado tinha terminado. No dia 26 de maio de 1834, em Évora Monte, sucumbe o governo absolutista de D. Miguel. Um dia depois, D. Pedro, em nome de sua filha a rainha D. Maria II, punha fim à missão jesuíta em Portugal, pois esta encontrava-se alinhada com todo um passado miguelista, enquanto representante do fixismo, do ultramontanismo, e, por conseguinte, também causadora da decadência do reino. No dia 1 de junho de 1834 D. Miguel embarca em Sines para o exílio, no vapor inglês Stag, em direção a Génova. No dia 7 de julho partem os jesuítas no navio batizado com o nome Verdadeiros Amigos. Em 1834, D. Pedro, apoiado por uma elite liberal que se encontrava no exílio e pelo suporte externo da Quádrupla Aliança, retomava os ideais de 1820 e dava início a um Governo Constitucional e a um Estado liberal.

Palavras-chave:

Miguelismo, Jesuitismo, Absolutismo, Liberalismo


The 1820 revolution foresaw a turning point in Portuguese politics, but constitutional liberalism was interrupted by the miguelist absolutism in 1828, based on the alliance between the Throne and the Altar, where the Jesuits once again played a major role in strengthening Legitimism. In 1828 D. Miguel returned to Portugal and, contrary to the promise made to his brother, on 23 June1828 was proclaimed king by the General Courts of the Kingdom, annulling the validity of the Constitutional Charter and restoring the traditional Constitutional Laws, counting with the European passivity and the Supreme Pontiff political intolerance regarding liberal and masonic ideals. To ensure this unanimous image of a dynastic-political legitimacy, the support of the Roman Catholic Church and the restoration of the Society of Jesus in Portugal were required. D. Miguel needed the Jesuits as “good educators” and “educators of the minds and consciences” of youth, based on the ideals ambitioned by the traditional monarchy, a legitimating society of status quo, with static sociopolitical principles, that did not contradict the principles of faith that the Roman Catholic Church laid down. The Jesuits will work in three main areas: traditional priestly ministries (preaching, confessions, catechesis…), missions to the population (proper catechesis ensure that the connection of the people to the Catholic Church (Altar) and to the king himself (Throne) are more efficient and reinforce ultramontanism), and in the education of youth. For D. Miguel, as for the Jesuits, the missions, catechesis, the confessional and education were the main basis for maintaining the social order. However, the change in the political situation in Europe in the 1830s is marked by the rise to the throne of a “bourgeois king” in France, the shift of the English ministry to liberal tendencies, and the rise to the throne of the regent D. Maria Cristina of Spain. On March 3, 1832, D. Pedro resumed his regency in the Terceira island (Azores). With D. Pedro, the conviction that the existence of regular orders was necessary for religion and useful to the state had finished. On May 26, 1834, in Évora Monte, the absolutist government of D. Miguel succumbed. A day later, D. Pedro, on behalf of his daughter Queen D. Maria II, put an end to the Jesuit mission in Portugal, as it was aligned with the whole miguelist past, as representative of fixism, ultramontanism, and, therefore also causing the decay of the kingdom. On June 1, 1834, D. Miguel boarded in Sines for exile, on the English steam Stag, towards Genoa. On July 7, the Jesuits depart on the ship named True Friends. In 1834 D. Pedro, aided by a liberal elite in exile and supported by the Quadruple Alliance, resumed the ideals of 1820 and established a constitutional government and a liberal state.

Keywords: 

Miguelism, Jesuitism, Absolutism, Liberalism