Emigrados portugueses: antilusitanismo e participação política no Brasil às vésperas da Abdicação de D. Pedro I

Portuguese emigrants: antilusitanism and political participation in Brazil on the eve of tue abdication of D. Pedro I

Gladys Sabina Ribeiro
Instituto de História – Universidade Federal Fluminense

Império brasileiro no Brasil independente, se portugueses, ou tidos como tal, chamavam a população dita “de dor” de macaquinhos desde a luta pela autonomia, a população “de cor” ia à forra quando podia. O Batalhão dos Henriques e os efetivos comuns de militares tinham um forte contingente de “homens de cor”. Um exemplo é o descontentamento popular demonstrado na chegada dos emigrados portugueses, vindos da Inglaterra por terem tido seus planos de desembarque em Portugal, para auxílio a D. Maria da Glória, fracassados. Alguns emigrados se integraram às tropas, outros reforçaram a população portuguesa do meio urbano e adjacências. O rancor contra os emigrados era sentido. Antes dos emigrados desembarcarem no Rio de Janeiro, já se tinha notícia das peripécias de Barbacena na Inglaterra. Um documento da “Magistratura da Bahia”, datado de 21/09/1827, denunciava a agitação popular diante das notícias de recrutamento de portugueses para lutarem em Portugal. Pasquins sediciosos, espalhados pela cidade de Salvador, convocavam o “povo” a lutar contra o “tirano” D. Pedro. Pediam que a Bahia se unisse a Pernambuco e ao Maranhão. Um deles dizia assim: “Às armas Brasileiros, estamos traídos pelos governos, o Imperador é maroto, e está desprezando os Brasileiros pelos marotos, 10 mil marotos mandou buscar em Lisboa para nos cativar, alerta, alerta, alerta milicianos e mancebos Brasileiros.

União, união, união, constância, morra o Presidente [de província], que ele bem sabe da traição, morra o governador das armas e todos os pirús (sic), que sabem quem são eles, viva a República, viva, viva e viva, viva a Santa Liberdade, morram os marotos, morram, morram. Às armas, às armas, às armas.” Discussões acaloradas aconteceram dentre os deputados, em 1830, a respeito da concessão de dinheiro público para esses estrangeiros. Havia igualmente uma pré- disposição da população contra estes imigrantes. De setembro de 1829 até julho de 1830, receberam subsídios do governo em moedas -que julgavam auxílio miserável. Loterias foram feitas e dinheiro foi distribuído por meio do Monsenhor Pedro Machado de Miranda Malheiros e de uma comissão que geria os recursos e confeccionava listas afixadas em lugares públicos. Quem contribuia tinha o nome divulgado no Diário Fluminense. Enquanto isso, os emigrados provocavam desordens e faziam todo tipo de expediente para sobreviver. Não contavam com a simpatia da população. Tropa, liberais “exaltados” e o “povo” acompanhavam a movimentação acelerada desse e de outros acontecimentos políticos. Parcela desse “povo” pertencia às tropas, ao Corpo da Polícia e aos “exaltados”. Se por um lado a recolonização era um fantasma sempre presente, principalmente depois do intrometimento do Imperador na gestão do Reino Português, da chegada dos emigrados e de uma partida de armamentos capaz de abastecer 10.000 praças (armas compradas por Barbacena na Inglaterra), por outro, acusava-se as “facções exageradas” de promoverem distúrbios. “Exaltados” e tropas uniam-se gradativamente. A notícia da Revolução em Paris excitava os ânimos.

A prevenção contra o estrangeiro crescia nas vésperas da Abdicação e continuaria ao longo da Regência. O impacto da emigração, com suas redes e cultura, se fez sentir ao longo do Império brasileiro.

Palavras-chave:

Antilusitanismo, Emigrados, Participação política


Brazilian Empire in independent Brazil, if Portuguese, or taken as such nationality, called the colored population “little monkeys,” when possible they fight for their rights and hit back. When the arrival of Portuguese emigrants from England, the popular discontent was shown. They come to Brazil because the failure of the Emperor plan to aid Dona Maria da Gloria. Some of these emigrants joined the troops, others reinforced the portuguese population of the urban area and surrounding areas. The grudge against the emigres would be felt. Before the emigrants disembarked in Rio de Janeiro, there were reports of the adventures of Barbacena in England. A document from the “Magistratura da Bahia” (09/21/1827) denounced the popular unrest at the news of Portuguese recruitment to fight in Portugal. There were seditious pasquins scattered throughout the city of Salvador calling the “people” to fight against the “tyrant”, D. Pedro. They also requested that Bahia join Pernambuco and Maranhão. One of them said: “To Brazilian weapons, we are betrayed by the governments, the Emperor is maroto, and is despising the Brazilians because of the marotos, 10,000 marotos he ordered to bring in Lisbon to captivate us, alert, alert, alert Brazilian militiamen and young men. Union, union, union, constancy, die [provincial] President, because he well knows of the betrayal, die governor of arms and all the pirus (sic), who know who they are, live the Republic, live, live and live, live holy liberty, die the marotos, die, die. To guns, to guns, to guns”. There was heated discussions of the deputies in 1830 about the granting of public money to these foreigners. One can also understand the willingness of the population against these immigrants. From September 1829 until July 1830, they received government subsidies in coins that they thought were miserable aid. Lotteries were made and money was distributed. Monsignor Pedro Machado de Miranda Malheiros and a commission managed resources. They made lists that were posted in public places. Names of the contributors were published in the Diário Fluminense. The emigres provoked disorder and did all kinds of work to survive. They did not count on the sympathy of the population. Troops, “exalted” liberals and the “people” accompanied the accelerated movement of this and other political events. “People” belonged to the troops, the police corps and the “exalted”. Recolonization was an ever-present ghost, especially after the Emperor’s action in the management of the Portuguese Kingdom, the arrival of emigrants and weapons, capable of supplying 10,000 soldiers (weapons purchased by Barbacena in England). On the other had, at that time the “exaggerated factions” were accused of promoting disturbances. “Exalted” and troops gradually joined. The news of the Revolution in Paris excited the spirits. Prevention against foreigners grew on the eve of abdication and would continue throughout the Regency. The impact of emigration, with its networks and culture, would be felt throughout the Brazilian Empire.

Keywords:

Antilusitanism, Emigrants, Political participation