Ausências historiográficas: regeneração de floresta na paz e na guerra em Portugal 1800-1824

Historiographical absences: forest regeneration in peace and war in Portugal 1800-1824

Cristina Joana de Melo
Instituto de História Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa

Até ao presente, a historiografia ambiental nacional e internacional, borda a história da floresta na ótica da sua destruição. Tal interpretação tem sido defendida para Portugal desde o século XV até á atualidade. No entanto falta elaborar análise dos quadros de manutenção e regeneração florestal paralelos ou sequenciais aos quadros de destruição. Assim, esta comunicação versa sobre as preocupações dos governantes portugueses com a necessidade de regeneração florestal e as medidas efetivamente acionadas em Portugal, em propriedades sob tutela da coroa, entre 1800 e 1824. Como Diogo Carvalho já provou Na Presença da Floresta, Mata Atlântica e História Colonial (2014), a mata atlântica brasileira não foi canalizada especificamente para a construção de embarcações portuguesas.

Considerando o exposto e aceitando que a Coroa portuguesa não recorria à madeira brasileira como garante de fornecimento de madeira para construção naval nos arsenais de Lisboa, havia que recorrer ao território nacional para esse efeito. Como tal seria imperativo expandir e manter em Portugal espécies florestais essenciais àquele fim, como se torna claro no Regimento da Montaria Mor do Reino de 21 de Março de 1800. Este documento reordenou a gestão funcional das coutadas reais; submeteu zonas de menor potencial agrícola a florestação e autorizou o plantio de sementeiras intercaladas com as árvores de “interesse real” em terrenos férteis, tanto em coutadas de mata como de caça. Seguiu-se um período de sementeiras de pinhal executadas entre 1801 e 1807. O plantio de pinhais e outras espécies florestais verificou-se na margem norte do rio Tejo, nas coutadas de Abrantes e na faixa litoral, entre marinha Grande e Ovar, antes da retirada da família real portuguesa para o Brasil (1807) e em períodos anteriores à grande iniciativa de José Bonifácio de Andrada e Silva na colocação de estacarias no litoral português para impedir avanço dunar (1815), considerada até ao presente como a obra seminal da reflorestação em Portugal no século XIX. Falta avaliar o porquê da invisibilidade historiográfica desta ação empreendedora na conservação e melhoramento da floresta da coroa num ato percussor de racionalização da gestão territorial agroflorestal Portuguesa anterior a exemplos Oitocentistas franceses e alemães muito valorizados na historiografia. Finalmente, importa esclarecer que a proposta em discussão é sustentada, no referente aos exemplos estudados, em legislação impressa e em informação recolhida em dois fundos arquivísticos manuscrito: Montaria Mor do Reino e Ferrarias da Foz do Alge, ambos em depósito Biblioteca e Arquivo Histórico de Obras Publicas-BAHOP, Lisboa.

Palavras-chave:

Arborização, Floresta, Coutadas reais, Regeneração florestal, História florestal


Up to the date, national and international environmental historiography has bordered the history of the forest in terms of its destruction. Such an interpretation has been defended for Portugal from the 15th century to the present.

However, analysis of the maintenance as also of subsequent afforestation and natural renewal remain to be elaborated. Thus, this communication addresses the concerns of Portuguese rulers with the need for forest regeneration in one hand and the measures effectively implemented in Portugal, in properties under the tutelage of the crown, on the other hand, within 1800 and 1824 .As Diogo Carvalho has already proved Na Presença da Floresta, Mata Atlântica e História Colonial (2014) [In the Presence of the Forest, Atlantic Forest and Colonial History (2014]), the Brazilian Atlantic forest was not applied specifically for the construction of Portuguese vessels. Considering the above and accepting that the Portuguese Crown did not use Brazilian wood as a guarantee of supply of wood for shipbuilding in the arsenals of Lisbon, it was necessary to resort to national territory for this purpose. As such it would be imperative to expand and maintain forest species in Portugal essential for that purpose, as it is clearly exposed in the Regimento da Montaria Mor do Reino de 21 de Março de 1800 [Royal Preserves Act 21 March 1800]. This document reordered the functional management of the royal preserves; submitted areas of lesser agricultural potential to afforestation and authorized the planting of seedlings interspersed with trees of “real interest” in fertile land, both in forest and hunting grounds. A period of pine planting followed within 1801 and 1807.The planting of pine forests and other forest species took place on the north bank of the Tagus river, in the preserves of Abrantes and on the coastal strip, between Marinha Grande and Ovar, before the withdrawal of the Portuguese royal family to Brazil (1807) and in periods prior to the great initiative by José Bonifácio de Andrada e Silva in the placement of stakes on the Portuguese coast to prevent dune advance (1815), considered until today as the seminal work of reforestation in Portugal in the 19th century.It remains to be clarified the historiographical invisibility of this entrepreneurial action in the conservation and improvement of the crown forest as a decisive act of rationalization of Portuguese agroforestry territorial management, which took place prior to French and German equivalent initiatives of 19th century, highly valued in historiography. Finally, it is important to clarify that the proposal under discussion is supported, in terms of the studied examples, in printed legislation and in information collected in two manuscript archives: Montaria Mor do Reino [Royal Preserves bureau] and Ferrarias da Foz do Alge [Royal Forges], both in the Library and Historical Archive of Public Works- BAHOP, Lisbon.

Keywords:

Afforestation, Forest, Royal Preserves, Forest Renewal, Forest History