Apropriações e representações da História na crise do Antigo Regime no Brasil: da Revolução do Porto à Independência

Appropriations and representations of history in the crisis of the Old Regime in Brazil: from the Porto Revolution to Independence

Luiz Carlos Villalta
Departamento de História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – Unversidade Federal de Minas Gerais, Brasil

A Revolução do Porto, de 24 de agosto de 1820, foi um momento crucial na Crise do Antigo Regime no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, sacudindo os dois lados do Atlântico. As motivações que conduziram à sua eclosão e os seus desdobramentos, porém, acirraram os antagonismos entre os dois Reinos. A Independência do Brasil (1822-1825) foi efeito imediato desse acirramento de contradições. No Reino do Brasil, os atores políticos, em grande parte, inicialmente saudaram a Revolução do Porto com grande entusiasmo, que se esmoreceu na medida em que as Cortes constituintes de Lisboa principiaram a deliberar sobre os contornos da nova ordem constitucional, o lugar das províncias brasileiras e a articulações entre elas, em especial a posição do Rio de Janeiro. De 1820 a 1825, em meio aos embates políticos, travados em impressos e em manuscritos, deram-se a produção e a circulação de representações históricas, usadas de diferentes maneiras, por vezes referindo-se aos mesmos fatos. As representações históricas foram mobilizadas de forma a legitimar os diferentes projetos políticos em disputa. Tais representações, além disso, estiveram correlacionadas a distintas identidades coletivas. Esta comunicação tem por objetivo examinar as representações do passado mobilizadas em impressos e manuscritos no Brasil entre 1820 e 1825, identificando os temas, os conceitos e autores privilegiados, os modos como foram articulados, bem como os sentidos estratégicos das apropriações de que foram objeto. Para tanto, serão usadas fontes históricas distintas. De um lado, serão examinados panfletos e sermões, que circularam à época como impressos e/ou manuscritos, dentre eles alguns dos que foram reunidos em Guerra Literária: panfletos da Independência (1820-1823), volume 3 (Sermões, Diálogos, Manifestos), organizado por José Murilo de Carvalho, Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves e Marcello Basile (Belo Horizonte: UFMG, 2014), e, ainda, “Carta, que hum Brasileiro muito amante de sua Pátria dirigio a hum seu amigo, residente fora da Côrte”, publicado no Rio de Janeiro, em 1822, pela Typographia Nacional. De outro, serão analisados textos da imprensa periódica, com destaque para os publicados em Idade d’Ouro do Brazil (jornal editado na cidade da Bahia entre 1811 e 1823, com provável interrupção em 1820); no Revérbero Constitucional Fluminense (que teve por redatores Joaquim Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa, sendo impresso inicialmente na tipografia de Moreira & Garcez, em seguida, na Nacional e, depois, na de Silva Porto, entre 15 de setembro de 1821 e 8 de outubro de 1822); e Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco (editado, sem interrupções, por Cipriano Barata de Almeida entre 9 de abril de 1823 e novembro de 1823 e, depois, com intervalos e mudanças de título, até 26 de setembro de 1835).

Palavras-chave:

Revolução do Porto, Independência, Periódicos, Impressos, Manuscritos, Representações históricas


The Porto Revolution of August 24, 1820 was a pivotal moment in the Old Regime Crisis in the United Kingdom of Portugal, Brazil and Algarves, shaking both sides of the Atlantic. The motivations that led to its outbreak and its unfolding, however, increased the antagonisms between the two Kingdoms. The Independence of Brazil (1822-1825) was an immediate effect of this sharp contradiction. In the Kingdom of Brazil, the majority of the political actors initially greeted the Porto Revolution with great enthusiasm, which faded as long as the constituent congress of Lisbon began to deliberate on the contours of the new constitutional order, the place of Brazilian provinces, and the articulations between them, especially the position of Rio de Janeiro. From 1820 to 1825, in the midst of political clashes in print and manuscripts, historical representations were produced and circulated, used in different ways, sometimes referring to the same facts. The historical representations were mobilized in order to legitimize the different political projects in dispute. Such representations, moreover, were correlated to distinct collective identities. This paper aims to examine the representations of the past mobilized in print and manuscripts in Brazil between 1820 and 1825, identifying the themes, concepts and privileged authors, the ways in which they were articulated, as well as the strategic meanings of their appropriations. For this, different historical sources will be used. On the one hand, some pamphlets and sermons, which circulated at that time as printed and/or manuscripts, will be examined, among themsome of which were gathered in Literary War: pamphlets of Independence (1820-1823), volume 3 (Sermons,   Dialogues, Manifestos), organized by José Murilo de Carvalho, Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves and Marcello  Basile (Belo Horizonte: UFMG, 2014), and also, “Letter, which a Brazilian very fond of his country addressed to a friend, resident outside the Court”, published in Rio de Janeiro, in 1822, by Typographia Nacional. On the other hand, texts from the periodical press will be analyzed, with emphasis on those published in Idade d’Ouro do Brazil (newspaper published in the city of Bahia between 1811 and 1823, with probable interruption in 1820); at the Revérbero Constitucional Fluminense (written by Joaquim Gonçalves Ledo and Januário da Cunha Barbosa, first printed in the Moreira & Garcez typography, then in the Nacional and then in Silva Porto, between September 15 1821 and 8 October 1822); and Sentinela da Liberdade in the Guarita of Pernambuco (edited without interruption by Cipriano Barata de Almeida between April 9, 1823 and November 1823 and then, with intervals and changes of title, until September 26, 1835).

Keywords:

Porto Revolution, Independence, Press, Printed texts, Manuscripts, Historical representations