Agricultura e vintismo: relações imperfeitas

Agriculture and the first liberal revolution: a history of imperfect relations

José Vicente Serrão
ISCTE-IUL

É tempo de reavaliar que tipo de relações se estabeleceram entre a Revolução de 1820, a agricultura e a sociedade rural. De um lado, importa perceber de que modo, concretamente, a conjuntura agrícola poderá ter influenciado o curso dos eventos na década que precedeu a revolução e durante o triénio vintista. Entenda-se por conjuntura agrícola, num sentido amplo, o conjunto de indicadores económicos directos (produções, preços), mas também os indirectos (por efeito da sua projecção no comércio externo e colonial ou nas receitas fiscais), assim como a evolução da situação social no mundo rural. Por outro lado, invertendo os termos da relação, e reconhecendo que a Revolução de 1820 representou um período de intensa mudança institucional e de novas formas de participação, debate e decisão política (petições, debates parlamentares, opinião escrita), importa perceber que visão tinham os liberais vintistas para a reforma da agricultura e da propriedade, como é que o seu ideário reformista se confrontava com a realidade, e como é que os actores sociais participaram no processo. Ver-se-á como, num caso e no outro, o vintismo e a agricultura se cruzaram em relações “imperfeitas”. Isto é, não se verificou nem uma relação causal linear entre a conjuntura agrícola e a Revolução de 1820, nem uma correspondência perfeita entre os projectos vintistas e a situação e necessidades reais da agricultura.


It is time now to reevaluate what kind of relations took place between the Revolution of 1820, the agriculture and the rural society. On the one hand, it is important to look at how the agrarian background might have influenced the course of events in the decade before the revolution and during the first liberal government. By agrarian background we mean, in a broad sense, the set of direct economic indicators (production, prices), plus the indirect ones (due to their projection on foreign and colonial trade or tax revenues), plus the situation in the rural world. On the other hand, reversing the terms of the relationship, and recognizing that 1820 opened a period of intense institutional change and new forms of political participation, debate and decision making (petitions, parliamentary debates, written opinion), it is important to reconsider which views the liberals had to reform agriculture and property, how their reformist ideas confronted reality, and how social actors participated in the process. It will be seen how, from one perspective and the other, revolution and agriculture related to one another through ‘imperfect’ relations. That is, there was neither a linear causal relationship between the agrarian background and the 1820 Revolution, nor a perfect correspondence between the liberal projects and the actual situation and needs of agriculture.